A sala tem doze cadeiras plásticas, um ventilador de teto que gira devagar e uma lousa com informações sobre pré-natal. Não é uma UBS. Não é uma clínica. É a sede do Grupo Mães do Morro, uma organização informal fundada em 2019 por Dona Conceição, 58 anos, que nunca estudou jornalismo nem medicina, mas que sabe mais sobre saúde materno-infantil na favela do que a maioria dos gestores públicos.
"Comecei porque perdi uma neta", conta ela, sem rodeios. "A minha filha não sabia que tinha que fazer o pré-natal. Ninguém explicou. Quando a gente foi ao posto, era tarde demais." Desde então, Dona Conceição e mais onze voluntárias atendem gestantes, orientam sobre amamentação, acompanham o desenvolvimento das crianças nos primeiros dois anos de vida e fazem o que o sistema público deveria fazer — mas não faz, pelo menos não aqui.
Os números que o Estado não tem
O Grupo Mães do Morro não tem CNPJ. Não recebe recursos públicos. Não aparece em nenhuma estatística oficial. Mas tem seus próprios dados: uma planilha de Excel, atualizada manualmente toda semana, que registra cada gestante atendida, cada consulta realizada, cada criança acompanhada.
Em 2025, o grupo atendeu 847 gestantes. Realizou 2.340 visitas domiciliares. Encaminhou 156 casos para a rede pública — e acompanhou cada um deles para garantir que o atendimento acontecesse. A taxa de mortalidade infantil entre as crianças acompanhadas pelo grupo é de 3,2 por mil nascidos vivos — abaixo da média municipal do Rio de Janeiro, que é de 8,7.